O Acossado

domingo, 30 de Agosto de 2009

Mudança de ares

A partir de agora, podem-me acompanhar aqui.

Em jeito de despedida, deixo neste blogue, excepcionalmente, o artigo que escrevi sobre a minha viagem aos Estados Unidos e que foi publicado no último número da revista Obscena. Agradeço ao Tiago Bartolomeu Costa por me ter lançado o desafio de escrevê-lo. Here goes nothing:

O propósito

De que estava à espera quando decidi ir aos Estados Unidos? Julguei que o melhor impulso para um desejo de viagem seria visitar o país que vê o homem pelo respeito da sua vontade. Na liberdade de se explorar, de criar e de contribuir para o seu terreno. Um espaço livre e épico como o maior dos sentimentos dos políticos e homens que o construíram. Numa só palavra: democracia. Churchill dizia que este era o pior dos sistemas com a excepção de todos os outros. Eu atrevo-me a dizer: os Estados Unidos são o pior país do mundo, com a excepção de todos os outros.

Mas se essa é a visão que construí de um espaço, o que tinha em mim para me levar a escolhê-lo como um destino para um mês inteiro de viagem? Não tinha objectivos, não tinha orçamento, não tinha respostas às minhas ideias, nem sequer sabia se elas eram ideias. Pior que um criador que não sabe por onde começar, era um simples homem que não sabia como começar os seus dias. Comprei o bilhete e perdi-me nesse espaço. Fui para lá sem saber quem eu era.

Tentei levar o que conseguia levar de mim, aquilo com que cresci e ainda alimenta a minha esperança de vida: os livros e palavras da escrita livre americana, o ideal no qual o país foi construído, a ideia que, aí, nesse sítio, também eu poderia talvez ser livre. E ao sê-lo, perceber onde me encontrava. Por fim, decidi embarcar e não pensar mais nisso, não pensar mais em mim. Não levei livros, não levei apontamentos, não levei guias. Ia chegar e seguir em frente. Este era o país que nos fazia. Para mim, talvez agora ou nunca. Essa era a sensação extrema que esse país me poderia dar. Deixei que ele me escolhesse antes de eu escolher alguém.

- “Bem-vindo aos Estados Unidos. Qual é o seu propósito?”
- “O meu propósito?”
- “A sua visita.”
- “Desculpe?”
- “Qual é o propósito da sua visita?”
- “Ah. O meu propósito da visita.”

Aterro em Washington D.C. Vou direito ao Mall, um imenso espaço cheio de céu e de ar com monumentos a desocuparem o espaço. A desocuparem, porque pela imensidão que se percebe assim que se entra aqui, é que nada se ocupa neste país. Há espaço e distância para enfiar trinta mil homens, ideias ou fúrias. Nessa noite, o país sente-se bem, quase de novo uma família. Há um presidente novo na sua casa.

Vou a pé até ao memorial de Abraham Lincoln. Faço o longo caminho até lá – segunda ideia que se ganha, a que há sempre um longo caminho a fazer. E se o fizermos no respeito do sentimento com que o iniciámos, valerá sempre a pena.

Subo as escadas e vejo casais e mais casais. Alguns tiram fotografias, mas este não é um espaço turístico. As pessoas abraçam-se e beijam-se, olham-se e olham para um homem sentado numa cadeira como livro aberto que os acolhe. Lincoln olha em frente e aponta-os para os seus novos dias. Faço o caminho de volta e entro pelos memoriais de guerra. A luz deste sítio aponta para o céu e eu não sei se neste momento ganhei o que queria. O meu propósito. O meu desejo.

Anoitece em D.C., o frio parece gelo mas o espaço é demasiado largo para não andarmos quentes. O espaço americano, ao contrário do europeu que nos cerca e nos diz quem somos, parece olhar para nós e esperar que mostremos aquilo que valemos, aquilo que queremos ser. Tudo está distante porque tudo é maior, não existe centro se por centro entendermos história. Toda esta amplitude tem um tempo: o presente. E é impossível não sentir que ele pega em nós e nos dá vida. Não é um nada, não é um vazio, é uma extensão. E o nosso desejo já não é perdermo-nos. É encontrarmo-nos.

Mas sinto que não quero esperar. Não quero envelhecer, ou pelo menos, não quero ficar aqui sozinho. D.C. é um grande conjunto de instituições, o prédio que se construiu a partir de uma ideia. Desejo ver um grande conjunto de personagens. Quero seguir. Vou para a Califórnia.
No autocarro, uma pessoa fala inglês: o motorista preto, que vai assobiando e cantando como se vivesse no Mississipi. Os passageiros são trinta latinos e um português. Eu ouço Dennis Wilson a cantar “going down by the river, river so free” e só vejo colinas verdes à volta. Vamos direitinhos a uma estação de serviço para a paragem de almoço. O autocarro estaciona imediatamente à frente de um Burger King.

Saio do autocarro e estou no meio de uma América do Sul. Entramos todos no dito restaurante para o primeiro de muitos hambúrgueres que irei comer nestas semanas. A televisão está ligada e fala de fé e religião. O calor é árido e dá transpiração ao ambiente obeso. Um pendejo com buço de dez anos atende-me no meio das suas borbulhas escaldantes. Se entrar aqui alguém e disparar sobre todos nós, tudo isto fará sentido. Eu sento-me lá fora. Talvez assim veja a matança pela janela como se estivesse em casa a vê-la pela televisão. Como espectador, talvez seja poupado pelo protagonista e possa a seguir contar à Fox News o que vi.

Seguimos caminho e nunca mais chegamos ao destino. Entramos numa auto-estrada de doze faixas que parece integrar totalmente uma estranha paisagem urbana e populacional. Uma ampla auto-estrada entre colinas largas e casas pequenas. Olho um pouco melhor: estamos a passar por saídas que vão dar a pequenas cidades que vejo da minha janela. Começo a perceber: isto é Los Angeles e em cinco minutos estarei em Hollywood.

Chego finalmente e sou o único a sair. Ando a pé até a um hostel. Vagabundos, loucos, pessoas vestidas de homem-aranha e Jack Sparrow. Figuras lynchianas que andam de carros de supermercado, os velhos socialistas todos de sacos de supermercado e babosos a falarem comigo quando passo por eles, a falarem com toda a gente e entre eles, punks tatuados demasiado estragados pelo hardcore, o ska e os ténis de marca, pisando nomes de estrelas e de músicos. Isto é Hollywood Boulevard e é assustador. Boulevard de Clichy em Paris é um cenário folclórico comparado com a estranha realidade falseada destes passeios. Estou enfiado num jogo de vídeo desactualizado e o objectivo é tentarem não me roubar o carro, se o tivesse. Assim, parece que o meu objectivo se torna roubar um. Continuo a andar a pé e os passeios vão desaparecendo. Não chego a lado nenhum, é tudo distante.

Encontro um branco de dois metros vestido de fato beige. É uma imitação estranha de um pimp, versão beta. As suas calças são curtas demais, tem óculos escuros Ray-Ban encarnados de cinco dólares e sapatos de vela verdes claros. Chama-se Adam e é comediante. Inventou um novo estilo chamado “comedy bombedy” que mistura comédia com rap e dispõe-se a fazer uma visita guiada a Beverly Hills. É obcecado com Fellini.

- “O meu filme preferido é 8 ½.”
- “O meu também”, digo-lhe.
- “A sério? Uau”. Cala-se dois minutos. “Mas porquê?”

Respondo-lhe: a realidade igual ao sonho, a sinceridade do falhanço dele, a criação como acto perdido e falhado, a paixão pelo amor, pelo corpo, pelas ideias frustradas, o sufoco de não se saber o que fazer com aquilo que pensávamos que queríamos, criar, falhar, renascer, existir. Cinema. Ele olha-me esbugalhado e percebi que acabei de estragar o filme preferido dele.
Apanhamos três autocarros até lá chegar. Beverly Hills é fora da cidade? Estamos nisto há uma hora. Outra coisa que se percebe – Los Angeles não é uma cidade.

- “Queres ver celebridades?”

Entrega-me um mapa cheio de estrelas. Moradas de actores, assassinatos e actos políticos locais. Apresenta-me casas de estrelas e actores, vizinhos prováveis e improváveis. Palácios e jardins privados. As pessoas que passam por nós a correr em fato de treino levam todas com a mesma pergunta:

- “É uma celebridade?”
- “Não, sou um segurança. O que é que vocês estão aqui a fazer?”
- “Somos estudantes de arquitectura. Estou só a mostrar o bairro histórico.”

Tal como a reacção de George Costanza quando parece realizar o seu maior sonho e o seu maior medo: “I’m an architect”. Eu lembro-me da t-shirt que vi com a cara dele no dia anterior e a frase por baixo: “I’ve got nothing.” E relembro-me: o meu propósito.

Apanho o autocarro de volta, despeço-me dele com a promessa mentirosa de ir ver o espectáculo dele logo à noite, sabe-se lá onde. Este lugar é o inferno: todos os sítios são iguais e o que quer que se faça, está tudo planeado desde o primeiro minuto. A realidade, aqui, é uma coisa relativa. Na verdade, o espectáculo está na rua, mas estamos presos a ele. Entro nos estúdios de cinema e os cenários prolongam-se industrialmente.

Sou apanhado pelo braço por um velho de noventa anos. Está impecavelmente vestido de fato e gravata tweed. Entre o momento em que me agarra e me diz a primeira palavra, é cumprimentado ao longe por dez pessoas.

- “Você está aqui para um casting?”
- “Não, vim só espreitar.”

Ele percebe que sou estrangeiro e venho de longe. Para ele, Portugal fica na Bélgica. É A. C. Lyles, o produtor de westerns. Falo-lhe de John Wayne. Ele conta-me como almoçava javardamente todos os dias com o Duke no refeitório da Paramount e faziam-se a todas as empregadas.

- “Um dia”, diz ele, “entrou uma mulher linda, óptima, que veio falar comigo sobre um novo papel que lhe queriam dar”. O Duke só olhava para ela, com aquele olhar dele, como quem vai comer a pessoa com duas palavras. Percebi que queria saber tudo, quem ela era, como se chamava, com quem dormia. Apresentei-os um ao outro e sugeri combinarmos um jantar a quatro, eu levaria a minha mulher. Ficou combinado. Ela foi-se embora e ele inclinou-se para a frente para ver o cu dela. ‘Maravilhoso’. Eu disse-lhe o nome dela. Era uma actriz que tinha sido homem, e era agora mulher. O primeiro caso de mudança de sexo assumido em Hollywood. O Duke não queria acreditar. Foi para casa todo fodido.”

Saio do estúdio e já me sinto doente. A poluição substitui o oxigénio e cria-me uma nova alergia. Neste momento, o actor sou eu e chamo-me Alvy Singer. Acabei de chegar a Los Angeles, tenho febre e mal consigo respirar. A cidade é uma droga, pega nos nossos sentidos e tira-nos o controlo. É uma ressaca e uma viagem ao mesmo tempo, é um espaço sem fim e fora de tempo. Não é aconselhável a quem está perdido. Olho para o mapa e vejo: está na hora de seguir.

Chego a São Francisco. Vejo caras, cafés, pessoas, casas, quartos e ruas. Há passeios e cores, bairros e comunidades. O primeiro choque: aqui somos reais, não temos limites, somos todos assumidos. Ruas requintadas e escuras, pessoas previsíveis e inquietantes, sítios bonitos e perigosos. Como se um espaço vivesse aberto a todas as pulsões de forma consciente, sem contudo mostrá-las violentamente. Estão ali aos olhos de todos e nós andamos no meio delas.
“Abandon despair all ye who enter here”, diz-nos a livraria City Lights. De espírito renovado, saio de lá e entro no vizinho bar Vesuvio, conhecido poiso dos beats e easy riders. Entro de livro debaixo do braço, perfeito europeu, para ler os meus poemas e beber o meu espresso.

- “Posso ver o seu bilhete de identidade, por favor?”

Pago seis dólares por uma Heineken. Tenho três televisões à minha volta, duas passam um jogo de cricket, a terceira concentra-se no snooker. Ao meu lado, três ingleses bêbados falam com o barman. Ele chama-se Bruce e é australiano. Está a fazer um cocktail cor-de-laranja com um nome de praia. Uma fotografia de James Joyce na parede parece olhar para mim. Despacho a minha cerveja e tento ignorar o americano tranquilo sentado à minha esquerda, que olha sossegadamente para os meus livros. Sinto que ele quer meter conversa. Deve procurar como eu um espírito perdido, de lenço ao pescoço e chapéu na cabeça. Eu faço de conta que escrevo qualquer coisa e tento-me lembrar porque é que vim aqui.

Do charmoso bairro italiano de North Beach desço até à Haight, o bairro do amor livre, das comunidades hippies. Na longa rua que atravessa o bairro, as lojas hippies vendem t-shirts dos Ramones e Led Zeppelin, pode-se optar por comprar droga entre a comunidade negra ou latino-americana (é o único bairro da cidade que não tem asiáticos), enquanto se faz o caminho para comprar um disco dos Jefferson Airplane. Um pouco como comprar uma torre Eiffel em miniatura em Paris, numa rua onde o amor já vive sem paz e as pessoas parecem-se ter esquecido de tudo o que eram. A palavra identidade, neste sítio, é uma coisa relativa. Entre anarquistas, hobos disfarçados e fashion victims, ninguém parece saber ao certo aquilo que são.
Subo de novo até à baía, passo pela ponte e praia, deito-me debaixo do sol e por cima da relva. E sinto: aqui, estamos exactamente como queremos. E se não sabemos o que isso é, é assim que estaremos também. O propósito da minha visita é esse.

Apanho o avião de regresso, espera-me um amigo em Nova Iorque. Chego assim à primeira casa da viagem. O meu amigo é família, relembra-me pessoas próximas, distantes, mais próximas e desaparecidas. Vive em Williamsburg e é espanhol, realizador, palavra profissional terrível. Nunca o vejo a responder com essa palavra às pessoas que lhe perguntam o que faz. “Faço filmes, trabalho em cinema, here’s my card”. Ser realizador não é uma profissão, é assumir que queremos realizar os nossos sonhos através da nossa vida. É assumir o papel mais terrível e angustiante que existe: o de confrontar as nossas ideias com aquilo que somos, apresentar-nos com a nossa visão do mundo. Não se é realizador, realiza-se: a vida, as emoções, o amor e a tristeza. Uma câmara apontada a um rosto realiza. Uma pessoa perdida numa viagem realiza-se.
Andamos os dois pelas ruas e avenidas. Perdemo-nos e reencontramo-nos por acaso. Viver aqui torna-se muito isso: um acaso. As pessoas que conheço não nasceram aqui: vieram cá parar. E agora estão. Melhor, realizam-se.

Por onde quer que se vá, há algo que nos chama a atenção. Viver aqui torna-se isso: somos chamados à atenção que algo acontece e que nós estamos no meio disso. É apaixonante, delirante, intimamente urbano e tocante. Se algo contraria isto tudo, é que a cada momento do dia sentimos que tudo isso se escapa facilmente entre os dedos das nossas mãos. Que no fundo, podemos muito bem não estar a conhecer ninguém. Lembro-me da Califórnia e das pessoas com que me cruzei. Se em Nova Iorque não o fazemos, o que se poderá dizer das que estão na outra costa? Entre actores e realizadores, os primeiros não têm um plano, os outros anseiam pela sua concretização. Entre interpretar e viver, a linha é confusa e o espaço é grande.

Vindo de onde vim, senti-me pequeno, especial e totalmente transparente. “One pill makes you bigger and one pill makes you small”. Enfiado na banheira do seu quarto de hotel, o advogado de Hunter S. Thompson cantava isso enquanto esperava que ele lhe atirasse a aparelhagem para dentro de água. Muitas vezes, andar neste país é o que vem antes: a bateria em bolero atrás das palavras que nos diz que algo está prestes a acontecer. Um grande choque ou uma grande desilusão. Imagens reais e imagens sonhadas, com ou sem fundo.

De volta a D.C., enfiado no aeroporto para o meu regresso, não sei dizer se as ideias são claras e as imagens vagas, ou o contrário. O que terão sido estes dias sem aquilo que me formou à partida, o país de onde sempre saí e voltei? Penso no que deixei, naquilo que poderia deixar caso ficasse, por alguma razão, neste lado do oceano.

Se uma viagem cria algo, poderá sempre ser uma representação, uma nova oportunidade. Nunca nos tira aquilo que temos. Dá-nos um novo espaço, um novo lugar. Não nos dá um novo corpo ou cabeça. Provavelmente, a seu fim, reafirma aquilo que somos. E ouço, antes de regressar, as palavras que David Crosby escreveu nesse país:“if I had ever been here before I would probably know just what to do / don't you?”. É esta a grande experiência deste país e o que o torna tão livre.

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